LOADING

Type to search

Tensões entre Hezbollah e Israel aumentam no sul do Líbano

Share

No último dia 28 de janeiro, mísseis antitanque do Hezbollah mataram dois soldados israelenses e um funcionário para a Missão de Paz da ONU, além de ferir outros sete soldados israelenses enquanto dirigiam nas Fazendas de Shebaa[1], uma área disputada ao longo da fronteira com o Líbano e atualmente ocupada por Israel. O enviado da ONU morreu no Líbano quando, então, Israel respondeu ao ataque ao seu comboio militar com mísseis aéreos e artilharia[2]. O incidente ocorreu horas depois de um ataque aéreo israelense na Síria, onde militantes do Hezbollah lutam ao lado do regime de Bashar al Assad[3]. O Hezbollah alega ter retaliado os soldados após o ataque de um drone israelense na semana passada, que matou seis combatentes do Hezbollah e um general iraniano[4]. Os recentes eventos representam um dos mais violentos embates entre Israel e o Hezbollah desde a Guerra de 2006, quando o sul do Líbano foi invadido após o sequestro de soldados israelenses pelo grupo xiita.

O estopim da atual escalada dos conflitos ocorreu em 18 de janeiro, quando um helicóptero israelense atacou a cidade síria de Quneitra, perto das Colinas de Golã, matando seis militantes do Hezbollah, incluindo um comandante, Mohammed Abu Issa, e o filho de outro comandante veterano assassinado, Imad Mughniyeh, assim como o General da Guarda Revolucionária Iraniana, Mohammed Ali Allahdadi[5].

De acordo com o Governo israelense, a presença e combate de suas forças de defesa nas fronteiras com a Síria são necessárias em virtude da ameaça representada pelo Hezbollah em sua atuação junto ao presidente Bashar al-Assad na repressão de opositores ao regime e rebeldes no país. Funcionários da Força de Observação das Nações Unidas para Desengajamento (UNDOF) confirmaram em relatório publicado em dezembro de 2014 a presença de documentação que comprova a cooperação e coordenação entre o Exército Israelense e grupos militantes armados na Síria para atuarem contra o Hezbollah na Síria, que está em guerra civil há quatro anos[5].

O ataque na manhã de quarta-feira, 28 de janeiro, ocorrido em resposta ao evento em 18 de janeiro, se deu após 24 horas de violência na fronteira ao norte de Israel, com registro de mísseis sendo lançados tanto da Síria quanto do Líbano[6]. Em retaliação, Israel lançou ataques aéreos e de artilharia entre a fronteira. Os dois soldados israelenses mortos foram identificados como capitão Yochai Klengel, de 25 anos, e o sargento Dor Nini, de 20 anos. O enviado da ONU para manutenção de Paz servindo à Força de Monitoramento UNIFIL, morto durante os embates na fronteira, foi identificado como Francisco Javier Soria Tolero, de 36 anos e originário de Málaga.

Os dois veículos israelenses percorriam a estrada perto de Har Dov e das Fazendas de Shebaa por volta de 11:30 da manhã, aproximadamente a 2kms dentro da fronteira[6]. Roman Oyarzun Marchesi, Embaixador da Espanha junto às Nações Unidas, culpou Israel pela morte de Toledo. Ele disse: “Foi por causa dessa escalada de violência, e que veio do lado israelense[6]. O Conselho de Segurança condenou a morte do soldado da paz em fortes termos e ofereceu suas condolências.

Após o ataque, Israel disse ao Conselho de Segurança da ONU que tomaria todas as medidas necessárias para se defender. “Israel não irá aceitar qualquer ataque em seu território e irá exercer seu direito à autodefesa e tomará todas as medidas necessárias para proteger sua população[6]. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu falou na televisão israelense após reunião com chefes de segurança e declarou “Quem está por trás do ataque de hoje vai pagar o preço integral. Há algum tempo, o Irã, via Hezbollah, vem tentando estabelecer uma frente terrorista adicional contra nós das Colinas de Golã. Nós estamos tomando ações fortes e responsáveis contra essa tentativa. O governo libanês e o regime de Assad compartilham responsabilidade pelas consequências dos ataques lançados a partir dos seus territórios contra o Estado de Israel[2]. Netanyahu culpou os “patrocinadores iranianos do Hezbollah[7] pelo recrudescimento da violência. Estamos sob ataque continuo orquestrado pelo Irã, que não haja nenhuma dúvida sobre isso. O Irã está tentando nos extirpar, eles não vão ter sucesso[7], afirmou ele aos soldados feridos no ataque desta quarta-feira.

Já o secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, declarou que Israelplanejou, calculou e tomou decisões premeditadas para assassinar[5] os combatentes, afirmando que o motivo por trás do ataque nas Fazendas de Shebaa estava bastante claro. “Nós não queremos guerra, mas não temos medo de ir à guerra[5], assegurou o secretário-geral. O ministro da defesa israelense Moshe Yaalon afirmou ter recebido uma mensagem através das Nações Unidas declarando que o Hezbollah não está interessado em uma nova escalada nos confrontos. Yaalon declarou que até que a área esteja completamente calma, as Forças de Defesa Israelenses permanecerão preparadas e prontas[8][9].

Nasrallah disse que os mortos no ataque de Quneitra mostraram uma “fusão de sangue libanês-iraniano em solo sírio, e reflete a unidade da causa e do destino dos países do eixo de resistência[5]. E complementou, indicando que os ataques da última quarta-feira foram em retaliação ao ataque em Quneitra: “Eles nos mataram em plena luz do dia, podemos matá-los em plena luz do dia […] os israelenses não podem matar o nosso povo e depois ir dormir… seus agricultores não podem ficar em seus campos e seus soldados não podem passear para cima e para baixo da fronteira como se eles tivessem meramente matado mosquitos[5].

Nasrallah também frisou que as regras de engajamento não mais se aplicam entre o movimento libanês e Israel. Em seu discurso em homenagem aos mártires mortos em 18 de janeiro, declarou: “Nós no Hezbollah já não estamos preocupados com qualquer coisa a que se chame ‘regras de comprometimento’. Isto é nosso direito, nosso direito legal e nosso direito moral, de enfrentar a agressão a qualquer hora, em qualquer lugar e de qualquer forma[10]. Ele também alegou que Israel está ajudando diretamente a Frente Al-Nusra, ramo da Al-Qaeda na Síria, nas Colinas de Golã. “Ela é composta por milhares de combatentes que possuem tanques, todos os tipos de armas e de posições militares, e os israelenses os fornecem cobertura aérea, abrem suas fronteiras para seus feridos e os tratam em hospitais israelenses[10].

No mesmo sentido, em recente entrevista de Bashar al-Assad à revista Foreign Affairs, o Presidente sírio acusou Israel se estar apoiando organizações terroristas na Síria, e que o chamado apoio à oposição moderada é irreal, já que o apoio ocidental a tais grupos se reflete em proteção a grupos radicais como a Frente Al-Nusra e o Estado Islâmico no Iraque e no Levante. Assad declarou em 27 de janeiro que se deve “implementar a resolução do Conselho de Segurança No. 2170 sobre a al-Nusra e o ISIS que foi emitida há alguns meses, e esta resolução é muito clara sobre o impedimento de qualquer forma de apoio a estas facções militarmente, financeiramente, ou logisticamente, mas isto é o que a Turquia , Arábia Saudita e Qatar ainda estão fazendo[11].

Referindo-se a quase total ausência da oposição moderada e ao apoio ocidental à grupos radicais, Assad também declarou que “os países ocidentais devem remover o ‘guarda-chuva’, ainda referenciado por aqueles que apoiam a oposição moderada. Eles sabem que nós temos principalmente al Qaeda, ISIS e al Nusra[11]. Em agosto de 2014, o Ministro de Ajuda ao Desenvolvimento da Alemanha, Gerd Mueller, acusou o Qatar de financiamento ao grupo militante Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS)[12]. Josh Rogin, correspondente sênior de segurança e de política nacional para o The Daily Beast, recentemente defendeu que o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) foi financiado durante anos por ricos doadores do Kuwait, Qatar e Arábia Saudita, três importantes aliados dos EUA na região e que possuem agendas duplas na guerra contra o terror[13].

Nas 24 horas seguidas do ataque ao comboio israelense pelo Hezbollah foi registrada uma série de trocas transfronteiriças entre forças israelenses e os combatentes na Síria e no Líbano, incluindo membros do Hezbollah. Uma hora após o ataque de mísseis antitanque, morteiros foram disparados em posições militares israelenses na montanha Har Dov e Mount Hermon. Israel respondeu atirando pelo menos 50 bombas de artilharia no Líbano[6]. Os Estados Unidos condenaram o ataque do Hezbollah como um ato de violência mas pediu calma. “Instamos todas as partes que se abstenham de qualquer ação que possa agravar a situação[6], disse o PortaVoz do Departamento de Estado, Jen Psaki[6]. Israel Ziv, general israelense da reserva e ex-chefe da Direção de Operações da IDF (Forças de Defesa Israelenses) disse a jornalistas que a situação era “inflamável”, e que Israel deve trabalhar para conter a situação. “Nós poderíamos nos encontrar em uma guerra que não pertence a Israel[6], disse ele.

Considerada uma organização terrorista por Washington, o movimento xiita Hezbollah possui tanto um braço militar – que resistiu a ocupação israelense no Sul do Líbano nas Guerras de 2000 e 2006 – quanto um braço político, que faz parte do governo libanês desde a década de 90, além de promover atividades sociais, econômicas e habitacionais no país. Hezbollah e Israel travaram uma guerra mortal em 2006, que terminou em impasse. Esse conflito durou 34 dias e causou morte e destruição em ambos os lados da fronteira. Segundo o correspondente da BBC, Jim Muir, de Beirute, a sensação da maioria dos analistas internacionais é a de que nem o Hezbollah nem Israel possuem muito interesse em uma escalada maior nas tensões. O Hezbollah já está fortemente envolvido na guerra na Síria, enquanto os líderes de Israel enfrentam eleições gerais em março de 2015[6][9]. A Guerra de 2006 entre Israel e Hezbollah matou mais de 1.200 pessoas no Líbano, essencialmente civis, e cerca de 160 israelense, em sua maioria soldados[5].

————————————————————————————

Imagem Veículos militares israelenses são vistos queimando em 28 de janeiro de 2015 nas Fazendas de Shebaa, território reclamado como libanês e ocupado por Israel, após um ataque com mísseis do Hezbollah” (Fonte AFP / Maruf Khatib / Al-Akhbar):

http://english.al-akhbar.com/content/not-war

————————————————————————————

Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-31035647?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_1.29.15

[2] Ver:

http://www.democracynow.org/2015/1/29/headlines#1292

[3] Ver:

http://www.democracynow.org/2015/1/28/headlines#1282

[4] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/01/29/world/middleeast/israel-lebanon-hezbollah-missile-attack.html?ref=middleeast&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_1.29.15&_r=0

[5] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/nasrallah-rules-engagement-israel-are-over

Ver também:

http://www.worldaffairsjournal.org/content/nasrallah-hezbollah-doesn%E2%80%99t-want-war-israel-isn%E2%80%99t-afraid-one

[6] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/jan/28/israel-hezbollah-soldiers-binyamin-netanyahu-lebanon

[7] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/01/30/us-mideast-crisis-hezbollah-israel-idUSKBN0L31QE20150130

[8] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/01/29/us-mideast-israel-lebanon-idUSKBN0L20HL20150129?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_1.29.15

Ver também:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced8284yq.69m/0d48d138

[9] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-31035647?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_1.29.15

[10] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/2015/01/nasrallah-hezbollah-respond-israeli-attacks-150130154836460.html

[11] Ver:

http://sana.sy/en/?p=26278

[12] Ver:

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2014/08/20/German-minister-accuses-Qatar-of-financing-ISIS-.html

[13] Ver:

http://www.thedailybeast.com/articles/2014/06/14/america-s-allies-are-funding-isis.html

————————————————————————————

Para mais informações sobre o financiamento do ISIS pela Arábia Saudita, ver:

http://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/view/saudi-funding-of-isis

Ver Também:

http://internacional.estadao.com.br/blogs/adriana-carranca/us-3-bi-por-ano-para-produzir-extremistas/

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

  • 1

Deixe uma resposta