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No mês passado, o Egito foi aparentemente surpreendido quando a Etiópia desviou o curso do “Nilo Azul”, um afluente do “Rio Nilo”, com a finalidade de construir uma represa que, supostamente, irá fornecer 6.000 megawatts de poder. Embora o Governo etíope tenha assegurado que o Rio retomará seu curso, as tensões têm se exacerbado entre os dois países. Exemplo disso é a afirmação do presidente egípcio, Mohamed Morsi, de que, se o Nilo “diminuir uma gota, então nosso sangue é a alternativa [1].

O Governo etíope, por sua vez, conta com o apoio de seu Parlamento, que aprovou com unanimidade um novo “Acordo de Quadro Cooperativo do Rio Nilo” (“Nile River Cooperative Framework Agreement”) e de outros cinco países da “Bacia do Nilo” (Burundi, Quênia, Ruanda, Tanzânia e Uganda), que já assinaram o Acordo. A iniciativa aparece como uma tentativa de substituir as prerrogativas egípcias e sudanesas sobre a administração do rio, datadas de acordo de 1929 com a Grã-Bretanha e de 1959 entre Egito e Sudão, respectivamente[2].

A questão, no entanto, é abordada pelo Governo egípcio em termos de segurança hídrica: segundo o Primeiro-Ministro egípcio, Hesham Kandil, em entrevista à CNN, o Egito é o país mais seco do mundo e tem no “Rio Nilo” 98% das suas fontes de água, para uma população de mais de 80 milhões de pessoas[3].

De toda forma, apelar para uma solução militar, opção enfaticamente considerada nos discursos de Morsi, pode apresentar riscos e dificuldades técnicas, o que favorece uma alternativa diplomática para a querela[4].Ademais, o recurso militar parece uma perigosa estratégia num país em que, como apontam especialistas, a oposição parece enxergar as “Forças Armadas” como um ator político legítimo e delas espera uma intervenção que os liberte do “regime islâmico” da “Irmandade Muçulmana[5]. Cabe ressaltar que a transição democrática no Egito “vem sendo minada por um legado de quase 60 anos de regimes consecutivos de militares[6].

De fato, analistas apontam que o fervor dos recentes discursos de Morsi a respeito da barragem etíope seria uma ferramenta política visando a distrair a atenção de desafios políticos e econômicos[7] do país[1]. Nesse sentido, destaca-se que o movimento rebelde (Tamarod) associa a estratégia diversionária   do presidente egípcio a um combate devido a sua “perda de popularidade, a raiva do povo em relação a ele, e o boicote da oposição[8].

O Tamarod planeja uma série de protestos para o dia 30 de junho, aniversário da posse de Morsi, quando o movimento pretende ter angariado 15 milhões de assinaturas – superando o número de votos recebidos pelo presidente – como resultado de uma campanha iniciada no mês de maio, ao final do qual já havia obtido 7 milhões de assinaturas[9].Neste último sábado, líderes de partidos da oposição se encontraram a fim de discutir os preparativos aos protestos de 30 de junho[10].

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ImagemO Rio Nilo e seus afluentes, o Nilo Azul e o Nilo Branco” (Fonte):

http://www.bbc.co.uk/news/world-africa-22850124

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-africa-22850124 (tradução nossa).

[2] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-africa-22894294

[3] Ver:

http://amanpour.blogs.cnn.com/2013/06/12/a-war-of-over-water-in-egypt/?iref=allsearch

[4] Para uma análise elaborada sobre as implicações de um ataque militar à represa etíope, ver:

http://www.stratfor.com/analysis/egypts-limited-military-options-stop-ethiopian-dam-project?utm_source=freelist-f&utm_medium=email&utm_campaign=20130613&utm_term=FreeReport&utm_content=readmore&elq=6c078a8fd40d4e86876e25c165cc7748

[5] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/06/14/egyptians_the_army_is_not_your_quick_fix, p. 1

[6] Azzam, Maha. “Egypt’s Military Council and the Transition to Democracy”. Middle East and North Africa Programme, Briefing Paper, mai 2012, p. 1. Ver em:

http://www.chathamhouse.org/sites/default/files/public/Research/Middle%20East/bp0512_azzam.pdf

[7] Ver:

http://www.guardian.co.uk/world/2013/may/16/egypt-worst-economic-crisis-1930s

[8] Ver:

http://www.dailynewsegypt.com/2013/06/16/morsis-popularity-declining/

[9] Ver:

http://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/73688/Egypt/Politics-/Morsi-using-Ethiopia-dam-crisis-to-boost-popularit.aspx

[10] Ver:

http://www.dailynewsegypt.com/2013/06/16/opposition-weighs-post-june-30-transition-plans/

 

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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