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Na madrugada de quarta-feira, 4 de maio, um cessar-fogo de dois dias entrou em vigor em Aleppo, conforme um acordo alcançado pelos Estados Unidos e Rússia. O regime de Assad aceitou respeitar a trégua. Moradores de Aleppo relataram violações dispersas, mas reportaram que o ato reduziu o nível de violência, suficientemente para que lojas pudessem abrir e as pessoas saíssem de suas casas. A violência, contudo, continua no resto do país, e um atentado duplo em Mukharam al-Fawkani, perto de Homs, matou pelo menos dez pessoas, horas após o cessar fogo em Aleppo.

O frágil cessar fogo obtido na disputada cidade de Aleppo foi anunciado por autoridades norte-americanas, em pacto com a Rússia. Militares sírios teriam informado que a trégua duraria apenas 48 horas. Ela foi alcançada após uma intensificação de combates entre “rebeldes” e o regime sírio em zonas civis, que já mataram cerca de 300 pessoas na cidade, ao longo das últimas duas semanas. A violência em Aleppo nas últimas semanas tem sido o pior conflito registrado no último ano da guerra. Ataques intencionais e diretos a hospitais, que são crimes de guerra, foram confirmados tanto em bairros sob controle do Governo quanto sob controle da Oposição, informou o Sub-Secretário-Geral da ONU, Jeffrey Feltman.

Reunidos em Washington, os responsáveis da diplomacia da União Europeia e dos Estados Unidos saudaram a extensão da trégua de fevereiro à região de Aleppo. Segundo John Kerry: “Assistimos já a uma diminuição da violência nestas áreas, mesmo que continuem a haver relatos de confrontos em algumas zonas, o que não nos surpreende, pois a trégua só entrou em vigor à meia-noite e estamos ainda no processo de comunicação”. Por seu lado, Federica Mogherini, a Alta Representante da UE para Política Externa e Segurança,  assegurou que “a União Europeia vai continuar a trabalhar no terreno para distribuir ajuda humanitária e também a trabalhar ao nível diplomático para que a retomada das discussões de Genebra permita uma transição e uma mudança política”, conforme reportou a Euronews. Nesse sentido, um cessar-fogo é essencial para a retomada das negociações de paz entre a Oposição e o Regime, previstas para a próxima terça-feira, dia 10 de abril, em Genebra.

Uma relativa calma prevalecia nesta quinta-feira, 5 de maio, na cidade síria de Aleppo, devastada pela guerra, na sequência do que foi acertado entre norte-americanos e russos. Um morador da região leste de Aleppo, controlada pelos “rebeldes”, disse que, embora caças tenham sobrevoado a área durante a noite, não houve repetição dos intensos ataques observados durante mais de 10 dias de seguidos bombardeios aéreos.

Pessoas de diversos bairros foram às ruas, onde mais lojas do que o habitual abriram as portas no bairro de Al Shaar, reportou o jornal O Estado de São Paulo. Uma fonte rebelde também afirmou que, apesar dos disparos intermitentes, a luta havia diminuído e não foram ouvidos ataques do Exército contra áreas residenciais.

A “cessação das hostilidades” para todo o país, que entrou em vigor 27 de fevereiro passado, reduziu notavelmente as mortes de civis, embora conte com diversas violações. Somente nos primeiros cinco dias, mais de 180 violações do acordo mediado pelas duas grandes potências foram documentadas, e vastas áreas de território foram excluídas do cessar-fogo. Até dezembro de 2015, a guerra civil síria já tinha matado pelo menos 470.000 pessoas, conforme aponta o Syrian Center for Policy Research, cujas estimativas afirmam ainda que a grande maioria das mortes de civis é causada por ataques do Governo.

Deve-se destacar que este novo cessar fogo para Aleppo é, na realidade, uma extensão da trégua pactuada em fevereiro. Ainda assim, o vilarejo de Mukharam al-Fawkani, localizado a cerca de 28 milhas a leste da central cidade de Homs, terceira maior cidade da Síria, foi alvo de um duplo atentado no dia 4 de maio. De acordo com a televisão estatal síria, entre os 10 mortos estavam 4 crianças e 3 mulheres. Outras 49 pessoas ficaram feridas. A Frente al Nursa, ramo da Al Qaeda na Síria, também é acusada de violar a tentativa de paralisação das hostilidades para a cidade.

O Governador de Homs, Talal Barrazi, declarou que as explosões foram desencadeadas por um carro-bomba e por um ataque suicida. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos, baseado na Grã-Bretanha, também confirmou o ataque e o saldo de mortos. Não houve reivindicação imediata de responsabilidade, mas o grupo Estado Islâmico tem nos últimos meses alegado estar por trás de vários ataques mortais semelhantes na Província de Homs.

A área das explosões é perto de onde as tropas sírias e pistoleiros do Estado Islâmico têm disputado controle do vital campo de gás Shaer, que caiu nas mãos do Estado islâmico na quarta-feira, depois que os extremistas invadiram 13 postos de controle do Governo e capturaram um soldado sírio. O Observatório reportou que 34 soldados do Governo e 16 militantes foram mortos em três dias de combates no local. Esta foi a primeira vitória do grupo extremista, desde a perda da histórica cidade de Palmyra, em março último.

A trégua estabelecida entre Regime e Rebeldes exclui grupos jihadistas, tais como o Estado Islâmico e a Frente Al-Nusra. As violações ao cessar fogo pelo Regime sírio e seu aliado russo se dão na medida em que presenças destes grupos extremistas são identificadas como infiltradas na oposição moderada. A Oposição acusa o Governo de violar o cessar fogo, enquanto este alega não aplicabilidade do Acordo, em virtude da presença de grupos jihadistas.

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ImagemA cidade síria de Aleppo amanhece com relativa calma, após acordo entre Estados Unidos e Rússia, para renovar uma cessação de hostilidades após duas semanas de forte violência entre rebeldese forças do governo” (FonteReuters, Abdalrhman Ismail):

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,alepo-amanhece-relativamente-calma-apos-renovacao-do-cessar-fogo–dizem-moradores,1864798

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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