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A Tunísia ante o retorno dos Jihadistas do Estado Islâmico

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A Tunísia, país do norte da África e berço da Primavera Árabe, enfrenta hoje sérias dificuldades de segurança no que diz respeito aos combatentes retornados da Síria, do Iraque e da Líbia. No pós-Primavera Árabe e com o despertar do islamismo radical, o país tornou-se um fornecedor de insurgentes estrangeiros que se juntaram ao Estado Islâmico, principalmente, na Síria, no Iraque e na Líbia. Aproximadamente entre 6.000 a 7.000 tunisinos conseguiram sair do país para lutar pelo autoproclamado Califado. Calcula-se que cerca de 15.000 combatentes tencionavam fazer o mesmo percurso para participar na jihad, mas a viagem foi frustrada pelas autoridades tunisinas.

Atualmente, a Líbia é o destino predileto dos insurretos da Tunísia ligados ao Estado Islâmico, entre os quais se encontram pessoas com formação universitária e outros profissionais recrutados online. Eles são figuras-chave do Estado Islâmico naquele país, formando um contingente em torno de 4.000 a 6.000 combatentes.

O êxodo de jovens tunisinos para engrossarem as fileiras de grupos radicais islâmicos no estrangeiro se justifica, segundo especialistas, devido à desesperança, à repressão de regimes políticos ditatoriais, às frustrações e à pobreza, de modo que o Califado surgiu, para eles, como o único sonho possível. Hoje, estes jihadistas estão retornando ao país de origem e, embora as causas não sejam totalmente claras, há hipóteses que vão desde as decepções decorrentes do que viram nos campos de batalha, até às deserções motivadas pelas perdas de território, insistência das famílias e a expectativa de recrutar compatriotas, ou ainda, outras causas ainda não detectadas pelos Serviços de Inteligência.

A situação dos retornados à Tunísia é considerada, por especialistas em terrorismo, como perigosa, uma vez que não é possível identificar todos os envolvidos em atividades insurgentes. Neste momento, grupos jihadistas estão em atividade na região montanhosa ocidental do país. O principal grupo radical ativo na Tunísia é o Katibat Uqba Ibn Nafi, aliado da al-Qaeda no Magrebe islâmico, considerado uma extensão do Ansar al-Sharia e Jund al-Khilafah, leais ao Estado Islâmico. Embora estes grupos estejam formalmente ligados a alianças distintas, eles “estão unidos na realização de ataques contra as forças de Segurança da Tunísia e do Exército através de emboscadas e minas terrestres; os ataques causaram às forças governamentais grandes perdas humanas desde 2012”.

Sem um plano definido para a reintegração e a reabilitação desses regressados à sociedade tunisina, o Governo tem recorrido a mandados de prisão e controles de fronteira. Porém, estas estratégias são vistas com cautela por especialistas no assunto, pois os presídios superlotados poderão se tornar o meio ideal para o recrutamento de mais radicais. Alguns líderes das Forças de Segurança Interna propuseram, em 2015, a retirada da cidadania aos retornados insurgentes, mas esta medida esbarra no artigo 25.º da Constituição da Tunísia, que dispõe o seguinte: “Nenhum cidadão pode ser privado da sua nacionalidade, exilado, extraditado, ou impedido de regressar ao seu país”.

A Tunísia se confronta, atualmente, com um problema que desestabiliza o Governo e a sociedade. Para Hadi Yahmed, pesquisador de grupos islâmicos, “esses combatentes, que lutaram em várias frentes, têm vindo a constituir combatentes de espera que são treinados e preparados para se envolverem em qualquer batalha futura contra o Estado e a sociedade, onde quer que haja um sério problema de Segurança”. As dificuldades enfrentadas atualmente pela Tunísia e que, de certo modo, também estão a ocorrer em França e na Bélgica em relação aos seus jihadistas nacionais, poderão, a curto e a médio prazo, se estender a outros países ocidentais. Na verdade, os mecanismos de controle interno adotados até o momento para detectar militantes islâmicos ideologicamente radicalizados não são precisos e a vigilância nas fronteiras também não é suficiente, não sendo, portanto, esta uma adversidade exclusivamente tunisina.

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ImagemAgentes da Polícia guardam a entrada do Museu Nacional do Bardo, em 19 de março de 2015, um dia depois de atiradores terem morto dezenas de pessoas em Tunes, capital da Tunísia” (Fonte):

https://www.vosizneias.com/wp-content/uploads/2015/03/Tunisia-Attack_sham-1.jpg

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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