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[:pt]Turbulência social na Etiópia se estende à escala global[:]

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Por um lado, se dentro de Addis Ababa emergem canteiros de obras e relativa estabilidade social, em suas adjacências eclodem protestos e episódios de intensa violência entre manifestantes e policiais. A magnitude destes episódios cresce paulatinamente, à medida que suas consequências são sentidas em escala global.

Já na Olimpíada do Rio de Janeiro, o gesto feito pelo atleta etíope Feyisa Lilesa trouxe à luz a atual luta da população Oromo pelos seus direitos civis. Na semana passada, a morte de uma pesquisadora estadunidense em um protesto nas cercanias da capital trouxe novamente a questão ao centro das atenções da mídia internacional.

Sharon Gray, 31 anos, se junta a outras 55 pessoas mortas durante as manifestações Oromo. Segundo fontes locais, ainda não foram totalmente esclarecidas as causas da morte da pesquisadora, a qual viajava à Etiópia para a discussão de um projeto em biologia das plantas, junto ao Instituto de Ecologia da Holanda.

As últimas semanas foram marcadas por intenso conflito entre os Oromo e a polícia, principalmente a partir das comemorações de Ação de Graças deste grupo étnico. A data, celebrada sempre no mês de outubro, ocorre ao final da estação chuvosa, na cidade de Bishoftu, à 25 quilômetros de Addis Ababa.

Perduram por já algum tempo os conflitos entre os Oromo e a polícia local. As manifestações revelam o lado oculto dos grandes projetos de desenvolvimento concebidos pela Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE), que, se por um lado trazem consigo “esperançosos” câmbios econômicos, como a propulsão do incipiente setor industrial no país, do outro silenciam as vozes contrárias.

A inexpressividade de vozes alheias na formulação das políticas públicas revela uma herança leninista na FDRPE e seu plano de ação alinhado aos pressupostos “centralistas democráticos”*. Em última instância, o direito de ocupar o lugar de fala e de enunciação de considerações sobre o futuro da economia, da política e da organização social da Etiópia é ocupado estritamente por sua elite burocrática, ocultando a voz dos interesses que emergem dos outros grupos sociais no país.

Tendo em vista os fatos acima relatados, à medida que os efeitos da turbulência social etíope se estendem aos outros países do globo, pode-se observar gradativa pressão dos órgãos internacionais sobre o Governo etíope no que diz respeito à garantia dos direitos individuais. Ainda que a agenda governamental da FDRPE já se demonstrou em outras ocasiões inescrutável à sociedade civil local e global, a crescente pressão pode implicar em mudanças em sua maneira de conduzir o país, visíveis no médio e longo prazo.

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* No centralismo democrático, prática comum entre governos de tradição de extrema esquerda, como o Partido Comunista Chinês, somente as posições governamentais são as válidas. Críticas e posições contrárias às deliberações oficiais são duramente silenciadas, dado que gera desfuncionalidades ao modus operandi do Estado.

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ImagemA Beta Israel protest in Israel over nonemployment of Ethiopian academics / Um protesto Beta Israel em Israel sobre o nãoemprego de acadêmicos etíopesTradução Livre” (FonteWikipedia):

https://en.wikipedia.org/wiki/Ethiopian_Jews_in_Israel

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Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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