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Turquia intensifica ataques a curdos do PKK no Norte do Iraque

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Militares turcos realizaram o ataque mais pesado a militantes curdos no norte do Iraque desde o início dos bombardeios aéreos na semana passada, terminando efetivamente uma trégua de dois anos[1].  Atualmente, a Turquia lança operações de combate em duas frentes, uma contra o autoproclamado Estado Islâmico na Síria e outra contra os campos dos Partido dos Trabalhadores do Curdistão, o PKK, dentro da Turquia e no norte do Iraque[1][2].   O PKK tem lutado contra o ISIS nestas regiões desde o ano passado (2014) e tem conquistado importantes vitórias militares. Durante uma sessão de emergência em Bruxelas, na terça-feira, dia 28, a OTAN ofereceu apoio às campanhas militares da Turquia, apesar de alguns Estados Membros terem expressado inquietação sobre a repressão do país contra os curdos[1]

Forças militares turcas estão em alerta máximo na Província de Sirnak, a sudeste, em virtude de um ataque contra suas forças pelos militantes do PKK, matando três soldados turcos. Ancara chama a dupla operação contra o PKK e contra o ISIS de “luta sincronizada contra o terror[3], mas membros do PKK acusam a Turquia de fazer uso dos ataques para esmagar seu movimento político e para consolidar o regime autoritário na Turquia[2].

Um processo de paz turco estava em curso desde 2012 para encerrar a insurgência que já dura três décadas e que já deixou cerca de 40.000 pessoas mortas desde 1984 – processo que parece cada vez mais complexo com a introdução do ISIS na equação securitária na região[2]. O cessar-fogo, embora frágil, estava sendo mantido desde março de 2013[3]. Engajar-se em conflitos em duas frentes é uma estratégia de alto risco para o membro da OTAN, deixando a organização exposta à ameaça de represálias por jihadistas e militantes curdos[3]. Não obstante, a OTAN concedeu total apoio aos ataques turcos nesta terça-feira.

No dia 28 de julho, o presidente turco Tayyip Erdogan afirmou que o processo de paz havia se tornado impossível com as ameaças curdasà fraternidade e à união nacional[4].  Horas depois, aviões turcos lançaram seu mais pesado ataque a militantes curdos durante a noite. O Iraque condenou os ataques aéreos como uma “perigosa escalada e um ataque à soberania iraquiana[3][4]. Os bombardeios atingiram abrigos, depósitos e cavernas em seis áreas, declarou um comunicado do gabinete doprimeiroministro Ahmet Davutoglu. Um alto funcionário turco declarou que este foi o maior ataque desde o início da campanha[3]. O Governo diz que o grupo se recusou a se desarmar e tem realizado uma série de ataques desde as eleições legislativas de 7 de junho, quando os candidatos curdos fizeram uma mostra de seu significativo apoio popular[4].

A Turquia também abriu sua Base Aérea de Incirlik, perto de Diyarbakir,  para a coalizão liderada pelos Estados Unidoscontra o Estado Islâmico, juntando-se a linha de frente na batalha contra os jihadistas após anos de relutância. Mas os ataques da Turquia sobre o PKK até agora têm sido muito mais pesados do que seus ataques contra Estado Islâmico, alimentando suspeitas de que sua real agenda visa manter as ambições políticas e territoriais curdas em cheque, algo que o Governo nega[3]. Embora considerem o grupo uma organização terrorista, Washington também depende fortemente dos combatentes curdos sírios na luta contra o Estado islâmico[3].

Das 1.302 pessoas presas nos últimos dias, no que autoridades descreveram como uma “batalha de pleno direito contra grupos terroristas[3], 847 são acusados ​​de ligações com o PKK e apenas 137 com o Estado Islâmico, disse o portavoz governamental Bulent Arinc. Selahattin Demirtas, Presidente do Partido HDP, de oposição pró-curda, cujos legisladores Erdogan quer ver processados por supostas ligações com o PKK, pediu o fim imediato da violência de ambos os lados[3]. “Nós temos que estabelecer pressão democrática que irá ajudar a silenciar as armas imediatamente. Estamos prontos para trabalhar com todos os políticos que querem conseguir isso[3], declarou.

Funcionários turcos declararam que os ataques contra o PKK são uma resposta ao aumento da violência militante nas últimas semanas, incluindo uma série de assassinatos de policiais e soldados atribuídos ao grupo. Já os militantes curdos do PKK alegam que os ataques aéreos são uma tentativa de “esmagar” o movimento político curdo e criar um “sistema autoritário, hegemônico[3] na TurquiaDemirtas acusa os esforços do Governo turco de estabelecer uma zona de segurança na Síria como uma tentativa de prevenir a formação de um Estado curdo na região[5].  Há meses a milícia acusa Ancara de ser conivente com a expansão do ISIS na fronteira da Síria, especialmente na cidade de Kobani, com maciça presença de curdos, de onde são reportados severos problemas humanitários desde o fim do ano passado[6]

Zagros Hiwa, PortaVoz da União das Comunidades Curdas, disse que estes ataques contra o PKK não terão sucesso. “Ao conceder uma aprovação implícita, os Estados Unidos prejudicam sua imagem entre os curdos[7], continuou Hiwa. “A melhor opção é uma solução democrática para a questão curda[7]Ilya L. Topper, Analista de Assuntos Externos e Democracia para o MSur, baseado em Istanbul, afirma que quando o partido AKP perdeu  sua maioria absoluta no Parlamento, em 7 de junho, com a vitória do HDP, ultrapassando a barreira de 10%, “os resultados mostraram como as pessoas começaram a ver que nem todos os curdos eram terroristas. Dois anos de paz fazem as pessoas esquecerem o derramamento de sangue e lhes dá esperança. Agora estamos de volta à estaca zero. Os curdos são ‘terroristas’ de novo[7], concluiu. 

Os ataques da Turquia contra os curdos vêm apenas um mês depois da oposição pró-curda do Partido Democrático do Povo ter ganho 13% dos votos, ajudando a privar o partido do presidente Tayyip Erdogan, AKP, da maioria no Parlamento pela primeira vez, desde 2002[8]. Muitos curdos acreditam que, ao reviver o conflito com o PKK, Erdogan está tentando minar o apoio para o HDP antes de uma possível nova eleição, e que o Presidente não tem intenção nenhuma de formar uma coalizão, o que limitaria seus poderes executivos. Erdogan não faz segredos de seu desejo de mudar a Constituição e acumular poderes mais fortes, o que seria praticamente impossível sem um forte governo do AKP de partido único[3]

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Imagem Soldados turcos posicionam uma bateria antiaérea na base aérea de Incirlik, no sul da cidade de Adana, Turquia, em 27 de julho de 2015” (FonteReuters/Murad Sezer):

http://europe.newsweek.com/three-turkish-soldiers-killed-kurdish-pkk-ambush-330992

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.democracynow.org/2015/7/29/headlines/turkey_escalates_assault_on_pkk_in_northern_iraq

[2] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/07/30/us-mideast-crisis-turkey-attack-idUSKCN0Q412W20150730

[3] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/07/29/us-mideast-crisis-turkey-idUSKCN0Q30OF20150729

[4] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/07/30/world/europe/turkey-escalates-airstrikes-on-kurdish-targets-in-northern-iraq.html?_r=0

[5] Ver:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced82vsjw.3iz/f7e532cb

[6] Ver:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/41180/turquia+intensifica+bombardeios+contra+milicia+curda+separatista+no+iraque+9+sao+mortos.shtml

[7] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/2015/07/turkey-pkk-square-150730074312972.html

[8] Ver:

http://www.democracynow.org/2015/7/29/fighting_both_sides_of_the_same_war

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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