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Um ensaio progressista na política norte-americana

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As eleições primárias nos Estados Unidos historicamente apresentam candidatos cujos ideários políticos transcendem muitas vezes o conteúdo programático de suas campanhas. Com falas eloquentes, carregadas de simbolismo ideológico, os debates, comícios e discursos produzidos e reproduzidos de todas as formas e em todas as mídias disponíveis funcionam como estratégias iniciais, um termômetro para mensurar o quão aceitável é aquele formato discursivo diante das massas e, por conseguinte se o futuro Plano de Governo poderá ser estruturado de acordo com as prerrogativas da aceitabilidade social.

Na atual disputa, dois candidatos destacam-se, justamente pela eloquência e por defenderem cada qual um espectro político específico. São eles: Bernie Sanders, Senador Democrata pelo Estado de Vermont, e Donald Trump, candidato pelo Partido Republicano. Contudo, o fenômeno produzido pelos atuais dois protagonistas é fruto de uma abordagem mais extremada, que outros dois candidatos, anteriormente considerados favoritos na disputa presidencial, Hillary Clinton (Democrata) e Jeb Bush* (Republicano), não puderam e não poderão adotar, pelo fato de representarem duas das famílias mais poderosas de Washington e com históricos recentes que os classificam como de centro no espectro político. Sendo assim, um movimento abrupto para qualquer dos lados, tornando tanto Sanders quanto Trump possíveis “Sheepdogging”, soaria falso e perigoso no decorrer das respectivas campanhas.

Ao confeccionar suas estratégias, Donald Trump e Bernie Sanders interpretam e exploram que o modelo político estadunidense com a presença das tradicionais oligarquias políticas está saturado e desgastado para grande parte da sociedade, que clama por mudanças profundas nos âmbitos econômico e social, principalmente a classe média, a fatia da sociedade mais prejudicada pela crise de 2008.  Nesse sentido, com base em suas convicções políticas trazidas desde a juventude, o candidato democrata, por exemplo, tem conseguido atrair a atenção da sociedade neste início, principalmente dos jovens, com uma proposta mais revolucionária, cuja similaridade não era vista desde as eleições de 1972, quando o senador democrata por Dakota do Sul, George Mcgoven (1922-2012), com um modelo político semelhante ao de Sanders, perdeu as eleições para Richard Nixon (1969-1974).

Ao traçar o perfil político de Bernie Sanders, especialistas discutem no âmbito da ciência política o enquadramento ideológico do candidato que explora a equidade social e o fim dos privilégios à classe mais abastada como requisitos de salvaguarda para um novo modelo capitalista, impondo em sua fala uma reflexão à sociedade, algo que, até o presente momento, tem ganhado relevância. O recente relatório sobre desigualdade global produzido pela organização inglesa Oxfam é um exemplo pertinente, pois gerou análises a respeito das mazelas sociais internacionais, servindo de ferramenta para, implicitamente, chancelar os discursos do democrata em suas viagens de campanha por todo o país.

Todavia, por ser ao mesmo tempo inovadora a condução da campanha do candidato democrata, as barreiras com as quais o referido se depara são grandes e enraizadas, por irem de encontro a indivíduos, instituições e conceitos formados quando o país se tornou a potência preponderante do atual sistema internacional. O modelo capitalista defendido pelos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial cumpriu e vem cumprindo uma modalidade de produção que é criticada pelo atual candidato, que a interpreta como usurpação para a atual realidade, uma vez que perpetua a exclusão, reproduz a desigualdade e a apropriação da produção social da riqueza por poucos.

No cerne desta ótica crítica, as consequências para sua campanha já foram destacadas por especialistas em política que foram consultados. Para que haja um ensaio progressista na política estadunidense em ano de sufrágio é fundamental a adoção de mecanismos, principalmente nos meios de comunicação que sejam justos a todos, porém, pesquisas apontam que é limitada e parcial a cobertura das principais redes americanas de TV (ABC, CBS, NBC) para a campanha de Bernie Sanders, se comparado o tempo desprendido para as campanhas de Hillary Clinton e Donald Trump, personificando, através dos dois candidatos, a orientação conservadora da mídia estadunidense.

Com o surgimento do que pode ser considerado um movimento antiestablishment nos Estados Unidos, é possível conjecturar que há uma tendência global para que a coordenação da comunidade internacional ganhe novos paradigmas políticos. A Espanha, através do Partido de Esquerda Podemos, e o Reino Unido, pela nova roupagem do Partido Trabalhista, encabeçado por Jeremy Corbyn,respondem a tal tendência, com um recorte político que foi iniciado na América Latina e que, agora, toma forma nos países que enfrentaram dificuldades econômicas nos últimos dez anos, dentre os quais, os Estados Unidos. Os norte-americanos estão aprendendo a dar voz a essa nova viabilidade política e intelectual, ou seja, através das classes populares há um estado de atenção em relação ao desenvolvimento econômico e financeiro modelado por conglomerados corporativos, que, além disso, em relação ao processo eleitoral, privatizam-no, ao ponto de parte considerável dos candidatos a cargos políticos poderem receber todo o dinheiro que suas campanhas conseguem arrecadar. Conforme vem sendo atestado, com base nessa liberalização monetária em processos eleitorais é possível que os representantes do 1% mais ricos da sociedade possam controlar e persuadir os representantes da massa eleitoral.

Por apresentar um discurso voltado à defesa social, alinhado com uma nova tendência mundial, Bernie Sanders vem apresentando disposição para criar bases sólidas. A corrida rumo a  predileção dos delegados do Partido Democrata, com uma proposta de cunho social-democrata, abrirá possibilidades para que instrumentos para redistribuir alguma riqueza, a fim de beneficiar os norte-americanos mais desfavorecidos, permite idealizar para a história do país a modalidade político-econômica mais progressista já desenvolvida por um candidato presidencial.

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* Jeb Bush, candidato republicano, suspendeu sua campanha, ao serem divulgados os números das primárias na Carolina do Sul.

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Imagem (Fonte):

http://media.jrn.com/images/b99660308z.1_20160129113530_000_gite9m9v.1-0.jpg

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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