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Um inimigo em comum: EUA e Irã lutam contra Estado Islâmico

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Em junho de 2014, tanto os Estados Unidos da América (EUA), quanto à República do Irã sinalizaram disposição para cooperar na luta contra o grupo jihadista  Estado Islâmico (EI). O EI é um grupo de atuação transnacional, que almeja a criação de um Califado (unidade político-religiosa extinta) no Iraque e na Síria. Na época, líderes dos dois governos manifestaram o interesse na cooperação para deter o Estado Islâmico, no entanto, as desconfianças históricas e a oposição interna dos dois países inviabilizaram o estabelecimento de uma cooperação[1].

É preciso observar que as relações entre Estados Unidos e Irã foram rompidas em 1979, quando ocorreu a Revolução Iraniana, colocando os até então aliados em lados opostos. A partir de então uma série de acontecimentos, como a inclusão do Irã no chamado Eixo do Mal, em 2005, o desenvolvimento do Programa Nuclear Iraniano, os interesses e alianças divergentes no Oriente Médio, estabeleceram uma forte competição estratégica entre os dois países. Esse quadro de competição foi amenizado em 2013 quando Hassan Rouhani, Presidente do Irã, buscou promover um diálogo de reaproximação com o Ocidente, particularmente com os EUA, a fim de pôr fim no isolamento do país e abrandar as sanções ocidentais que sufocam a economia iraniana há décadas[2].

No presente, o avanço do Estado Islâmico no Oriente Médio pode ser, segundo alguns analistas, um ponto de convergência entre Estados Unidos e Irã, haja vista que as preocupações dos dois governos transcendem as fronteiras do Iraque e incluem interesses de ambas as partes na região como um todo. Desse modo, o contexto geopolítico favorece à cooperação entre os Governos norte-americano e iraniano[3]. Contudo, é necessário observar que o Irã é inimigo de dois tradicionais aliados norte-americanos: Israel e Arábia Saudita. Além disso, os EUA apoiam os rebeldes sírios que tentam derrubar Bashar al-Assad, que é aliado do Irã.

Posto isso, é preciso ter em mente que os objetivos políticos do Governo norte-americano para o Oriente Médio giram em torno de eixos principais: garantir a segurança de Israel; impedir que o Irã tenha acesso a armas nucleares; manter boas relações com as potências regionais Turquia e Arábia Saudita; conter grupos islâmicos radicais[4]. No entanto, a complexidade do atual quadro na região, que engloba distintos grupos e interesses, tem gerado diversas contradições. Segundo afirma Hall Gardner, professor de política internacional na Universidade Americana de Paris, os Estados Unidosse encontram num dilema e não sabem o que fazer, pois existem muitos interesses conflitantes e contraditórios entre os sauditas, os iranianos, o governo iraquiano, o governo sírio e todas as outras forças envolvidas[5].

Em vista disso, apesar do Irã e dos Estados Unidos compartilharem um inimigo em comum, os dois países não estabeleceram uma cooperação para combater o EI. Entretanto, para muitos analistas, essa cooperação ocorre de forma extraoficial. De acordo com Houschang Hassan Yari, professor de ciência política da Academia Militar Real do Canadá (RMC-C), “Washington tem conhecimento de todas as atividades iranianas no Iraque. Claro que o Irã não precisa pedir permissão aos EUA para agir no Iraque, mas Teerã não agiria no Iraque sem antes informar os EUA. Afinal, ambos têm o mesmo objetivo: derrotar o ‘Estado Islâmico’[6].

Em dezembro de 2014, John Kirby, porta-voz do Pentágono, confirmou pela primeira vez que o Irã realizou recentemente bombardeios aéreos contra posições do Estado Islâmico no leste do Iraque, no entanto, negou qualquer envolvimento dos Estados Unidos na operação feita pelo Irã[7]. Segundo Kirby,  “temos indicações de que houve bombardeios com aviões F-4 Phantom nos últimos dias[8]. Todavia, o Governo iraniano negou qualquer tipo de envolvimento em ataques contra o EI em território iraquiano e assinalou ainda que não há cooperação com a coalizão liderada pelos EUA[9].

Vale lembrar que o Irã foi o primeiro país a se prontificar em auxiliar o país vizinho no combate ao grupo jihadista  enviando equipamentos e assistência em campo. O Irã também enviou ao país vizinho caças Sukhoi Su-25 para ajudar na defesa do país. Além disso, as milícias xiitas treinadas pelo Governo iraniano que lutam contra o EI no Iraque são um importante apoio ao fragmentado exército iraquiano[10]. Assim, de acordo com Mohammad Javad Zarif, Ministro do Exterior do Irã, o Governo iraquiano deve ser ajudado na luta contra o terrorismo[11]. Nesse sentido, cabe ressaltar que o Irã tem buscado ampliar sua influência no Iraque há anos, um exemplo disso é atuação da Força Quds, um braço da Guarda Revolucionaria Iraniana no país vizinho.

Apesar de muitas especulações sobre uma possível cooperação entre o Irã e os Estados Unidos, os dois governos negam a sua existência. No entanto, John Kerry, Secretário de Estado dos EUA, declarou que o Iraque tem autonomia para fazer o que quiser no seu espaço aéreo[12], mas salientou que “se o Irã está enfrentando o ‘Estado Islâmico’, isso é positivo, mas não terá nenhum tipo de coordenação com os Estados Unidos[13].

Desse modo, ao que indica, existem duas forças combatendo o Estado Islâmico, uma liderado pelos EUA e outra pelo Governo iraniano. Segundo Hassan Hashemian, especialista em assuntos iranianos, “o Irã quer formar sua própria coalizão contra os terroristas do EI. Ao dar seu apoio na luta contra o EI, assim como é feito pelos países ocidentais, o governo em Teerã pretende assegurar que os curdos se tranquilizem[14]. Em contrapartida, o governo dos Estados Unidos lideram desde o ano passado uma Coalizão Internacional que inclui aproximadamente 60 países e três organizações (OTAN, UE, Liga Árabe).

Alguns analistas argumentam que o Oriente Médio e o atual quadro é importante demais para que não haja um diálogo entre os principais atores da região[15]. Apesar da necessidade de coordenação entre as Forças da Coalizão e o Irã, até mesmo para se evitar um possível choque aéreo, os dois negam qualquer tentativa de aproximação nesse sentido. Todavia, analistas acreditam que nos bastidores o Governo iraquiano age como intermediário dos dois lados[16].

O Irã é um relevante ator no Oriente Médio, devido à sua importância geopolítica, capacidade de influência regional e à relativa estabilidade. Em vista disso, e, para não fragilizar ainda mais as tentativas de reaproximação entre os dois países, Barack Obama, Presidente dos EUA, enviou, em outubro de 2014, uma carta ao aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo Iraniano, a fim de salientar que os ataques aéreos no Iraque não eram um desafio à influência iraniana no país[17]. Por fim, cabe ressaltar que mesmo que haja uma cooperação nos bastidores na luta contra o Estado islâmico, é muito provável que ela se restrinja apenas ao Iraque, uma vez que na Síria as alianças e o contexto interno levam EUA e Irã a lados opostos.

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Imagem (Fonte):

https://isape.wordpress.com/2014/01/03/eua-ira-e-siria-possibilidades-de-reconfiguracao-geopolitica-no-oriente-medio/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.dw.de/eua-e-ir%C3%A3-sinalizam-disposi%C3%A7%C3%A3o-de-cooperar-na-crise-do-iraque/a-17710542

[2] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/aproximacao-e-impasses-entre-estados-unidos-e-ira/

[3] Ver:

https://www.stratfor.com/analysis/iraq-united-states-and-iran-align-against-islamic-state

[4] Ver:

http://www.dw.de/objetivos-conflitantes-dificultam-pol%C3%ADtica-dos-eua-para-o-oriente-m%C3%A9dio/a-17735417

[5] Ver:

Idem.

[6] Ver:

http://www.dw.de/os-interesses-do-ir%C3%A3-na-luta-contra-o-estado-isl%C3%A2mico/a-18108852

[7] Ver:

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/03/internacional/1417595652_440291.html

[8] Ver:

Idem.

[9] Ver:

https://isape.wordpress.com/2014/12/04/ira-e-eua-cooperam-para-combater-estado-islamico/

[10] Ver:

Idem.

[11] Ver:

http://www.dw.de/os-interesses-do-ir%C3%A3-na-luta-contra-o-estado-isl%C3%A2mico/a-18108852

[12] Ver:

https://isape.wordpress.com/2014/12/04/ira-e-eua-cooperam-para-combater-estado-islamico/

[13] Ver:

Idem.

[14] Ver:

http://www.dw.de/os-interesses-do-ir%C3%A3-na-luta-contra-o-estado-isl%C3%A2mico/a-18108852

[15] Ver:

http://www.dw.de/opini%C3%A3o-ir%C3%A3-contra-o-ei-o-inimigo-do-meu-inimigo-%C3%A9-meu-amigo/a-18108434

[16] Ver:

Idem.

[17] Ver:

Idem.

Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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