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A tensão instaurada em um Oriente Médio já combalido por guerras civis e cisões étnicas ganha profundidade e complexidade com a derrocada nas relações diplomáticas entre o Emirado do Qatar com Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrein, Egito, Iêmen e Líbia, um posicionamento que pode revelar muito mais do que uma simples discordância entre atores vizinhos.

Presidente Trump e o Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud durante reunião dos líderes do GCC, no King Abdulaziz Conference Center, em Riad, Arábia Saudita

O momento atual do Oriente Médio converge com a chegada de Donald Trump à Casa Branca e essa releitura das tensões no subcontinente abre precedentes para dividir o quadro conjuntural da região em dois: de um lado, Estados Unidos e membros do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC na sigla em inglês), sob o protagonismo da Arábia Saudita; e, de outro lado, o Irã.

Com a sua primeira viagem como Presidente ocorrendo em Riad, Trump concordou com a Monarquia saudita no que tange ao papel do Irã como desestabilizador da região, porém sofreu críticas de observadores internacionais que insinuaram que sua presença em solo saudita tenha provocado ainda uma divisão entre os árabes do Golfo.

Embora haja concordância a respeito da influência iraniana na geopolítica do Oriente Médio, o objeto de debate no âmbito do Conselho de Cooperação do Golfo é que faz diferirem as ações que cada Estado pretende tomar.

Ministros das Relações Exteriores do P5+1 antes do anúncio final

Nesse sentido, para especialistas na região, o acordo consolidado nas negociações nucleares entre o P5 + 1 (Estados Unidos, China, Rússia, França, Reino Unido, mais Alemanha) e o Irã foi o propulsor na divisão dessas ações.

Sob a liderança da Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, atores céticos com o acordo, a preocupação se dá pela elevação do grau de influência que gerou para os iranianos o afrouxamento das tensões entre o ocidente e o Irã. Contudo, outros atores, incluindo Omã e o Emirado de Dubai esperavam capitalizar o acordo e forjar novas parcerias comerciais. O Kuwait e o próprio Qatar, pelo histórico recente, se posicionaram no meio, ou seja, anseiam pela contenção do país persa, porém também desejam a diminuição dos desequilíbrios, uma vez que compartilham interesses com Teerã, a incluir campos de gás e outras fontes de comércio.

Por apresentar uma posição histórica ambígua nas relações exteriores, Doha ganhou o protagonismo. Em meado dos anos 1990 flertaram com Saddam Hussein, Irã e Israel, bem como com a oposição saudita através das transmissões da Al Jazeera.

Em tempos mais recentes, o Qatar mantém boas relações com Hezbollah e apoia abertamente o Hamas, além de ser acusado de apoiar grupos islâmicos radicais na Síria, bem como a Irmandade Muçulmana em todo o Oriente Médio, fator preponderante para o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi intervir e apoiar a crescente pressão sobre os qataris.

Em Washington, a posição neutra apresentada pelo secretário de Estado, Rex Tillerson, e pelo Departamento de Defesa contrasta com o desconforto pelo vínculo existente de Doha com diversos grupos jihadistas.

Entretanto, fora dos registros oficiais, Washington concorda que o vínculo com grupos como Hamas, Taliban e a Al-Qaeda atenuaram as posições desses grupos, tornando-os mais acessíveis às negociações, tal  como em 2014, quando o Qatar persuadiu o Taliban a libertar o soldado estadunidense Bowe Bergdahl, ou quando ajudou a garantir meses depois a liberdade de Peter Theo Curtis, jornalista detido pela filial da Al-Qaeda na Síria, a Frente Al-Nusra.

Para observadores, analistas e membros do Governo estadunidense algo deve ser feito sobre as políticas de Doha, dada a divergência entre o posicionamento do presidente Trump e o que as agências de segurança nacional acreditam. Nesse sentido, uma das alternativas veiculadas é utilizar do Kuwait como negociador para o fim do impasse no Golfo.

Por outro lado, há o aspecto geopolítico da atual administração que já elegeu o Irã como o inimigo a ser combatido para sua política externa no Oriente Médio e, nesse sentido, os acordos comerciais de cooperação militar firmados na viagem a Riad são os meios para materializar o enfraquecimento do Estado persa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente Trump e a PrimeiraDama Melania Trump sendo recebidos pelo Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, no Aeroporto International Rei Khalid” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/whitehouse/33975154893/in/photolist-TLgxSD-UWd5Yu-bPPABZ-RnEj3L-UN4vxF-S8YKn8-8YwT7n-NpH67r-V2jqtE-V3PXXT-88oN54-9bFEc7-UZLwWi-cLxZTJ-UQo2cy-TLgxKp-RtH8ug-TRUDC3-cLy1Xs-cLy7ko-cLy6jw-VokkRp-bTRAzz-cLy5m1-cLy4hw-cLya5Q-cLy8ij-cLy35y-bYQL73-74Em8v-8ybXSR-RkJAgw-Rh3EHU-Hmht7q-AKWYCC-4Npn2X-UR4F3K-dN4HM-HzSNzS-Jm21sg-C9T6V5-N12wQu-Npoa8a-TFhn3F-RaZizp-yuskc9-LV1wdk-EqDPMf-vTokWX-wnM6Wq

Imagem 2Presidente Trump e o Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud durante reunião dos líderes do GCC, no King Abdulaziz Conference Center, em Riad, Arábia Saudita” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/whitehouse/34031493273/in/photolist-TRfij2-rdNe5A-edBueJ-edo9zf-e9gAup-ea9c5S-8uVrja-hL1KZC-dMQzyX-hL2pXZ-rtmq7F-hL1YU5-TRfidk-paY1My-hL1oyR-azh1r4-pj3Rk5-hyxXSf-efk6H2-f2BK19-rrrxaG-Tpyypp-hL1TmS-edvX7V-8uVhLn-hL2c21-ouVnZF-TY3w1y-5uS6kX-8vBVTe-hL1YEq-hL2Dmn-ejBSxe-e6BRzB-8vEXjo-ea9cfh-hL2BEN-8vEXd9-hL2dPN-8vBWaH-8uVbxt-ei4fPM-edRRXA-hL2a1g-8vEXtU-8vEXmG-hL1TEr-9W2P8p-hL2Ryj-pDrBgb

Imagem 3Ministros das Relações Exteriores do P5+1 antes do anúncio final” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/P5%2B1#/media/File:Iran_Talks_Vienna_14_July_2015_(19067069963).jpg

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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