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Um ano após a tentativa de Golpe de Estado, Erdogan parece ter consolidado seu poder além do que se podia esperar. O estado de exceção se tornou o “novo normal” na Turquia. Uma mídia paranoide e uma repressão sem precedentes desde a época dos regimes militares, com demissão e prisão de milhares de oponentes criaram a atmosfera que permitiu o “êxito” do referendo em abril. Uma nova Constituição formalizará a transição para o autoritarismo. Sem dúvida, o governo AKP* conseguiu mobilizar vastas reservas de conservadorismo e nacionalismo, explorando uma tendência de ver complôs em cada lugar. Contudo, não sejamos severos demais. Mesmo que a conexão da Hizmet com terrorismo seja fantasmagórica, ainda é verdade que a Turquia tem nos últimos anos sofrido com vários ataques terroristas mortíferos (provavelmente jihadistas). A reação popular turca não é muito diferente daquela que se observa na Europa ou nos EUA: reforça-se o poder do executivo às custas das liberdades individuais e dos controles jurídicos.

No primeiro aniversário da tentativa de Golpe, três observações se impõem:

  1. Em primeiro lugar, apesar das aparências, da repressão e do referendo, Erdogan está longe de ter silenciado seus oponentes. A oposição democrática na Turquia ainda está bem viva. Testemunho é a maciça “marcha da justiça” que no mês passado (em 9 de julho) mobilizou centenas de milhares de demonstrantes. Isto confirma que, ao invés de ter unificado o povo turco acerca do líder e de seu programa, a “tentativa de golpe” – sobre o qual ainda não sabemos tudo – deixou uma ferida aberta. Também no Ocidente as diásporas turcas permanecem dilaceradas entre correntes pró e contra Erdogan. A perseguição contra a Hizmet não consegue mascarar um país profundamente dividido.
  2. Em segundo lugar, a comunidade internacional se mantêm cética em relação à versão oficial dos acontecimentos do ano passado (2016), e crítica frente às violações de direitos dos cidadãos pelo Governo turco. Mesmo neutros no que diz respeito às responsabilidades pela tentativa de Golpe, governos, tais como o alemão, não aceitam facilmente as prisões políticas e a censura. Além do mais, os europeus se preocupam com as tentativas de Ancara para controlar as comunidades turcas radicadas em seu território, consideradas uma intromissão indevida. A Holanda e a Áustria bloquearam a entrada de ministros turcos que iriam comemorar com turcos locais a “vitória” do 16 de julho. Na mídia internacional, a Turquia está sendo doravante associada aos Estados onde se afirma que a democracia se erode ou é reduzida a formalidades propagandísticas, tais como a Rússia, a Venezuela, o Irã, ou Hong Kong. Nesse sentido, esvaziou-se a percepção que se tinha de a Turquia ser um modelo que combina islã e democracia, uma visão popular, até poucos anos.
  3. A terceira novidade provem do próprio Fethullah Gülen, que declarou há três semanas (conforme notícia divulgada em 12 de julho) que não mais procurará evitar sua extradição a um governo turco que, sem dúvida, prefere enforcá-lo após um processo político. Isto se entende melhor se lembrarmos as tentativas de intermediários de Erdogan em obter o aval de conselheiros do presidente Trump, ou à extradição, ou até a um sequestro de Gülen.

Embora seja reduzida a probabilidade de um destes cenários se realizar, a nova posição de Gülen mostra coragem e sabedoria política. Aos 79 anos, ele deve ter chegado à conclusão de que enfrentar abertamente seus detratores e até morrer mártir por suas convicções, constituiria o último serviço que ele ainda pode prestar aos ideais que defende. Como um Sócrates muçulmano, não foge das leis injustas de seu país. Preferiria voluntariamente o autossacrifício “útil” a um exílio que deixa planar dúvidas na mente de um vasto grupo indeciso.

Espera-se, obviamente, que o inspirador do movimento Hizmet nunca chegue a este fim. Mas a mera vontade de se oferecer não deixa de impressionar, e encorajará as forças, dentro e fora da Turquia, que militam em prol de um futuro de pluralismo, diálogo e compaixão.

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* AKP é o Partido da Justiça e Desenvolvimento, em turco, “Adalet ve Kalkınma Partisi”, cuja abreviação é “AK Parti”, ou AKP.

Prof. Peter Robert Demant

Historiador e professor de Relações Internacionais, especializado em questões do Oriente Médio, o mundo muçulmano e as relações islã-ocidente. Mestrado (1981) e doutorado (1988) em História Moderna e Contemporânea pela Universiteit van Amsterdam, Holanda; Livre-Docência em História Contemporânea pela Universidade de São Paulo (2007). Professor Associado 2 no Departamento de História da USP, lecionando também no Instituto de Relações Internacionais (IRI-USP) e pesquisando principalmente nos temas: Oriente Médio, islã e islamismo, conflito Israel-Palestina, e a hegemonia do ocidente e sua contestação.
 Autor dos livros O Mundo Muçulmano e Islã vs Islamismo.

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