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Uma igreja medieval no centro da disputa entre georgianos e armênios

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Uma catedral ortodoxa georgiana do século X foi palco de um confronto entre armênios e forças policiais da Geórgia. O incidente aconteceu na manhã de sábado, dia 30 de setembro, quando residentes armênios da cidade de Kumurdo, na região de Javakheti, tentaram erguer no pátio da igreja uma cruz de pedra, símbolo religioso conhecido como khachkar, em armênio. A ação tinha o intuito de homenagear seus antepassados que teriam sido enterrados no local, depois que escavações arqueológicas encontraram ossadas nas imediações. Quatro oficiais e um número não identificado de moradores foram feridos após a polícia ter sido chamada para impedir a manifestação.

Exemplo de Khachkar armênio

A significativa população armênia residente na Geórgia permanece sendo um potencial fator de atrito entre os dois Estados. A província de Javakheti, ao sul do país, costuma ser o epicentro dos conflitos, já que é habitada majoritariamente por armênios e no passado já foi alvo da disputa territorial das duas repúblicas. Embora casos de violência étnica tenham sido mais frequentes no imediato pós-desintegração da União Soviética, ao longo dos primeiros anos da década de 1990, o convívio entre os povos na região permanece marcado por tensões.

O descontentamento entre os armênios de Javakheti aumentou a partir de 2007, depois do fechamento de uma base militar da Rússia, ativa desde a época soviética. A instalação russa respondia por parcela relevante da atividade econômica da região e sua remoção representou o crescimento da taxa de desemprego e a piora na qualidade de vida da população local. Outro elemento que gerou desconforto foi a revisão da política migratória por Tbilisi*, que obrigou a que muitos armênios se desloquem a cada três meses ao seu país para renovarem seus vistos de permanência.

No entanto, ao contrário do apoio oferecido aos residentes da região de Nagorno-Karabakh, que resultou em uma guerra contra o Azerbaijão, a Armênia vem evitando qualquer menção ao princípio de autodeterminação dos povos em relação às demandas separatistas que por vezes eclodem em maior grau em Javakheti. Isto é explicado pela necessidade de manter boas relações com a Geórgia, país que representa o único elo terrestre com a Rússia, além de oferecer uma saída para o mar através de seus portos no Mar Negro.

Dada a dependência do país vizinho, é remota a possibilidade de que Yerevan** passe a se posicionar de maneira enfática na defesa da população armênia na Geórgia, sob o risco de deterioração dos laços de cooperação que mantém com Tbilisi*. Contudo, não se pode desconsiderar a possibilidade de que a política de Estado sucumba às pressões de uma população descontente, sobretudo em uma região tão volátil como o Cáucaso do Sul.

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Notas:

* Tbilisi: Capital da Geórgia, referindo-se ao Governo do país.

** Yerevan: Capital da Armênia, referindo-se ao Governo do país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Catedral de Kumurdo” (Fonte):

https://ru.wikipedia.org/wiki/%D0%9A%D1%83%D0%BC%D1%83%D1%80%D0%B4%D0%BE#/media/File:Kumurdo_Cathedral.jpg

Imagem 2 Exemplo de Khachkar armênio” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Khachkar#/media/File:Khachkar1_Gyumri.jpg

Rodrigo Monteiro de Carvalho - Colaborador Voluntário

Mestrando no programa de Pós Graduação em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduado em História também pela UFRJ. Atua na área de Política Internacional, formação de alianças e segurança regional. Desenvolve pesquisas com enfoque específico no estudo dos países do Cáucaso do Sul, Eurásia e espaço pós-soviético. É membro do Grupo de Pesquisas de Política Internacional (GPPI/UFRJ) e do Laboratório de Estudos dos Países do Cáucaso (LEPCáucaso).

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