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A viagem do Presidente Barack Obama à Arábia Saudita na última semana, para um encontro com o monarca Salman bin Abdulaziz Al Saud (o novo mandatário da Casa de Saud, após a morte de seu irmão Abdullah), serviu como prévia para Cimeira do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, na sigla em inglês), em que o Reino do Bahrein, Kuwait, o Sultanato de Omã,  os Emirados Árabes Unidos,  assim como a própria Arábia Saudita discutiram sobre políticas para amenizar os desequilíbrios no Oriente Médio e restabelecer o diálogo em segurança internacional, para homogeneizar os discursos diplomáticos em prol da estabilidade regional.

Ao aterrissar no Aeroporto Internacional King Khalid, em Riad, para talvez uma de suas últimas viagens à região como Presidente, Obama trouxe à mesa de negociação com o Rei Salman prerrogativas para o restabelecimento dos laços que, por vezes, ficaram abalados, por conta dos movimentos da Casa Branca em política externa com a qual Riad, recentemente, não aprovou e, por conseguinte, condiciona tais desdobramentos como fundamentais para os atuais desequilíbrios no Médio Oriente.

Nesse sentido, as duas paisagens dicotômicas e conflitantes em matéria de interesses fizeram com que o Reino saudita pressionasse os Estados Unidos a resolverem determinadas questões, dentre as quais: reabilitarem os Estados falidos; comprometerem-se no desarmamento do Irã; mudarem o equilíbrio de poder na guerra civil síria em favor de Bashar al-Assad e buscarem uma solução para o conflito israelense-palestino.

Como apontam especialistas, a preocupação explícita da Monarquia Saudita, através destes e de outros cenários que complementam a atual situação calamitosa na região, é legítima, uma vez que Riad, ao longo das últimas décadas, foi o Estado preponderante por apresentar a estabilidade política e as divisas necessárias para manter o status quo a seu favor. Contudo, a catástrofe humanitária na Síria, o Estado Islâmico (Islamic State of Iraq and Al-Sham, na terminologia considerada adequada) com ações em curso, a Guerra Civil no Iêmen contra a minoria xiita Houthi e a Rússia, como a única grande potência até então capaz de desestabilizar os extremistas no terreno iraquiano e sírio, trouxeram para as fronteiras do país um sentimento de insegurança, cujas implicações podem gerar instabilidade no âmbito interno.

Como as bases políticas para legitimidade do Regime foram construídas através de um modelo de bem-estar e ortodoxia religiosa, são visíveis que há movimentos intrínsecos capazes de questionar tais preceitos pela possibilidade, por exemplo, de mudanças ocorridas no mercado energético de hidrocarbonetos, com seus preços em baixa, acarretados pela utilização de fontes alternativas de energia, que culminaram na diminuição das receitas e, consequentemente, no estrangulamento do orçamento para um Estado que vê sua população crescer. Diante dessa conjuntura, os atuais governantes sauditas preveem dificuldades na manutenção da ordem em médio prazo, uma vez que poderá não haver recursos, nem legitimidade islâmica para afastar os adversários crescentes. Por isso, a projeção internacional, com base em políticas que privilegiam ataques preventivos e financiamento de grupos extremistas como ferramenta de política externa, tem sido adotada pelo Reino para inibir em suas fronteiras a entrada de insurgentes que possam ameaçar o Estado.

Mediante o crescente risco de instabilidade político-social, a relação entre Arábia Saudita-Estados Unidos, apesar de deteriorada desde os tempos do Presidente Bill Clinton (1993-2001), tem o desejo de conter essas diferenças ao buscar enfatizar os ganhos comuns. Porém, o retorno ao velho paradigma em que Washington forneça aparato militar para segurança da Monarquia Absolutista em troca de estabilidade nos mercados globais de energia é pouco provável. Atualmente, no âmbito das políticas energéticas estadunidenses, um senso de dependência do petróleo árabe é refutado. As jazidas de gás de xisto, as reservas internas de petróleo e fontes alternativas tem suprido a demanda, bem como, em outra via, não há por parte da opinião pública o desejo de rever os Estados Unidos ofertando um papel de polícia regional, modelo este que denota para Riad um sentimento de abandono e traição, ainda mais pela inserção de Teerã na equação geopolítica, como ator relevante para o reequilíbrio do Oriente Médio.

Embora as diferenças políticas dominem os discursos em ambos os lados, as duas nações ainda se apoiam em questões estratégicas. A Arábia Saudita, por exemplo, participa dos ataques aéreos da coalizão liderada pelos Estados Unidos contra o ISIS na Síria, incluindo a participação de um dos filhos do Rei Salman Bin Adbul-Aziz Al Saud na campanha militar, fato este que reforçou a mensagem de legitimidade internacional, diante do esforço norte-americano, e evita, por fim, a questão de uma “cruzada” ocidental contra os muçulmanos. Em contrapartida, há o apoio de organismos de inteligência estadunidense no fornecimento de informações vitais e apoio logístico à campanha liderada por Riad contra os rebeldes Houthi, supostamente financiados pelo Irã.

Outros pontos importantes e considerados como vantajosos para a manutenção da cooperação estão ligados às áreas de contraterrorismo, comércio de armas e treinamento militar, uma vez que é clara a preferência por parte dos sauditas por armas de fabricação norte-americana, fato este consumado pela administração Obama, que aprovou um pacote de armas de US$ 60 bilhões em 2010, o maior da história dos EUA.

Por fim, com base em novos preceitos de cooperação é que a aliança pode se sustentar. A notória dependência de Riad, no que tange aos esforços de segurança e interesses geopolíticos, pode ser alternada para uma matriz de cunho mais econômico, haja vista que a expansão financeira no reino, fruto de um mercado de ações aberto para investidores em 2015, trouxe muitos Bancos americanos e europeus ao país, bem como fundos de private equity e hedge fund que transferiram equipes de Dubai para a capital saudita.

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Imagem (Fonte):

http://www.cfr.org/publication/image-resizer.php?id=36524&preset=bkg_tcp_1160

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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